terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Nunca fomos tão felizes- Arnaldo Jabor

A globalização da economia é um bonde carregado de problemas novos, que pode nos jogar num vazio de excluídos. Mas tem a vantagem de nos colocar mais perto da verdade nacional, rompendo as paredes da "taba imaginária", uma ilha ibérica de esperança vã.
A globalização nos trouxe o contato com métodos de gestão mais anglo-saxônicos, trouxe dinamismo para as empresas, trouxe nova ética empresarial, nova ética contábil. Hoje, já podemos pensar em um novo nacionalismo sem cair nos antigos esquematismos.
A tal "mão invisível do mercado" pode nos dar bananas, claro. Mas o conceito de "mercado" dinamiza a autorregulação da vida social e econômica do país. "Mercado" como termômetro dos perigos da injustiça, mas também como sensor dos desejos sociais, "mercado" como amenizador de certezas burras, "mercado" como relativizador de um poder público totalitário.
Hoje, o inimigo principal não é mais a "burguesia" gorda e fumando charuto; o inimigo é a incompetência estatal e simbioses corruptas com um empresariado dependente.
Já entendemos que a ideia de "solução" para o país é um mito. Nunca se chega a uma "solução" histórica. Seria o tal "fim" do Fukuyama, que tantos amam em segredo. E, pelo avesso, a ideia deprimida de "insolubilidade" é também um pretexto reacionário. Podemos, no máximo, limpar caminhos, sanear processos. A ideia de "solução" é substituída pela de "processo".
A sordidez nacional que a democracia exibe, a corrupção, a falta de vergonha política, a violência, todas as falhas boçais do sistema sugerem que a contrapartida para combatê-las deveriam ser medidas boçais, violentas. Só que, para desarmar a eterna bomba suja nacional, há que se ter paciência e aceitar complexidades. Radicalidade não é apelar para a ignorância. Grossura contra grossura se anulam mutuamente.
Já percebemos que os problemas do Brasil são muito mais complicados do que uma mera questão de injustiça social, a ser resolvida apenas pela dinâmica de uma "luta de classes". A injustiça é endêmica e de tal modo paralisante que inviabiliza até um embate de classes. A má distribuição de renda não é causa; é consequência de uma secular estrutura autocrática, de um Estado patrimonialista que tem de ser reformado.
Já sabemos que o Brasil é este país que está aí, com suas deficiências e políticos atrasados. Não há uma outra nação. Mudar o país tem de ser "por dentro", e não uma intervenção mágica, ditatorial ou golpista.Ou seja, alegrai-vos, otimistas... Há luz ao fim desse túnel imundo.

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